quinta-feira, 18 de junho de 2009

EXCELENTE E VERDADEIRO ESSE DEPOIMENTO!!!

OS NOVOS GREGOS
Arte de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



As festas gays são imbatíveis.

Nunca me decepcionei. Heteros como eu procuram as animadas baladas para dançar com irreverência. Erra-se o passo, mas não a alegria. Sem censura, a alegria aprende passos no tropeço.

O que me enlevava era a liberdade gestual, ninguém reprimia a diferença, não havia vigilância e preconceitos, um respeito e um cuidado raros na noite.

Descobri que não é mais assim em São Paulo. Os gays começam a se excluir.

Estava numa das principais casas noturnas, na Lapa. Um espaço para duas mil pessoas. O jogo de luzes da pista de dança provocava vertigens, a música eletrônica batia bem dentro das veias, não tinha motivo para frustração. Tanto que eu me diverti na entrada, pela primeira vez paguei menos do que a minha namorada.

Mas me encolhi com a violência estética. Homens desfilavam iguais, sósias de stripers, sem camisa, corpos em dia, calça jeans. Não andavam juntos, abraçavam-se ao espelho. Em pequenas rodas, fermentavam um assédio brutal, apontando, rindo, avaliando com a arrogância de jurados (algo como "quem vou levar para cama?"). Jovens malhados rebolavam em cima das mesas, uma vitrine viva, belvedere das curvas masculinas.

Fui lançado para uma academia de musculação, em que a felicidade se resumia a bíceps avantajados e torneados. As coreografias bélicas se repetiam em ciclos, no levantamento de copos e anabolizantes.

Não encontrava lazer, e sim um estaleiro iluminado de bicicletas ergométricas, esteiras, aparelhos de braços e pernas.

Os acenos e a aproximação se restringiam ao corpo. Ao elogio unicamente da nudez. Na pista, eu me sentia um pedaço de carne, assim como as mulheres já se viram ao longo do século. Só que era uma pobre costela. As picanhas, os vazios, os filés passavam perto em frenético espeto corrido. Fiquei com a impressão de que se os heterossexuais cuidassem mais do físico seriam gays. Dominava no local uma estética da gostosura, uma seita de foliões atletas, decididos a segregar quem não partilhava da idolatria física.

Nada contra a beleza, a vulgaridade é que me agredia. Não existe nada mais vulgar do que não permitir a conversa. Havia um culto à perfeição que desprezava contrapontos e dissidentes.



Onde estavam os magrelas, os barrigudos, os carecas, os tímidos e os introvertidos gays naquele ambiente?

Do lado de fora, ao redor da piscina. Marginalizados, num purgatório de silêncio e água. Não iriam correr o risco de serem linchados verbalmente. De serem humilhados por trabalharem o dia inteiro (como explicar que faltou tempo para se habilitar à olimpíada sexual?). Não ousariam tirar a camisa e se constranger pelos ossos que saltam dos ombros. Participavam da festa fora da festa.

A sedução consistia em atacar, não trocar idéias ou humanizar o rosto. Logo os gays que sofreram uma das mais graves perseguições culturais estão se perseguindo. Tomam para si os piores vícios da masculinidade.

Onde botaram o humor inteligente capaz de incluir os receosos? Onde colocaram a generosidade da carência, a viver o desejo sem culpa, sem afronta, sem diminuir os indecisos?

A turma não transmitia graça e leveza. Séria em sua performance. Desfilava uma concentração sádica, uma seqüência alternada de esforço e suor, uma devoção cega às britadeiras imaginárias.

Os sedentários não têm direito de dançar. Os ociosos, os intelectuais, os ocupados devem procurar um outro jeito de se divertir e namorar. Se possível, escondidos. Armários vão sendo criados pelos próprios gays. Inaugura-se uma patrulha muscular, em que os feios são desconsiderados. Postos em gavetas. Amedrontados.

Parece que a paixão acontece apenas pela aparência. O pensamento deixou de excitar.

Para ser gay, é preciso agora ser halterofilista. Não venha despreparado. Os novos gregos são troianos.